sexta-feira, 13 de março de 2015

Orgulho!



ORGULHO!

É a palavra que melhor define aquilo que senti e estou a sentir com a recepção que eu e o meu colega José Rosa recebemos e estamos a receber da comunidade portuguesa em África do Sul! 
Orgulho em ser Português, orgulho pela forma de ser dos portugueses, sobretudo os que fazem as suas vidas longe do seu país natal. 
Hoje a "Companhia do Bacalhau" organizou um jantar de apoio à nossa participação na Absa Absa Cape Epic. Não conhecia em absoluto nenhum destes portugueses ou descendentes. Mas é como se já os conhecesse desde sempre. A festa foi imediata.
Eu e o Zé tivemos que vir deitar, já depois de vários brindes com Chadornnay e Grapa. Por momentos me esqueci que ainda era atleta! Lol. Eles continuaram a festa, e nós viemos deitar. smile emoticon
Mas são momentos como este que quando era profissional não tinha possibilidade de usufruir, e agora tenho a sorte de conciliar o desporto que tanto amo, com estes momentos de confraternização.
E agora perguntam. Mas isto não pode prejudicar o rendimento na prova? Talvez sim, talvez não. Mas pelo menos novos amigos já GANHEI! wink emoticon

Até amanhã. Já é meia noite e meia aqui e amanhã temos que acordar às 6h30 smile emoticon

terça-feira, 10 de março de 2015

ABSA CAPE EPIC - "A viagem"


Bom Dia Amigos!
E começa a nossa aventura Absa Cape Epic 2015.
Hoje temos etapa dupla. A primeira será de 2h30 com chegada a Heathrow (Londres). E a segunda até Cape Town com duração de 10h30. A chegada à Cidade do Cabo está prevista para amanhã às 7h15.
Temos apenas dois bilhetes de avião, mas connosco vão mais 610 pessoas wink emoticon

Vamos dando notícias. Até amanhã.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Andalucia Bike Race - "Missão mais que cumprida"

E terminou a minha primeira aventura em BTT de 2015. Nada mais nada menos que a Andalucía Bike Race, já famosa por ser uma das mais exigentes da Europa, a nível físico e técnico.
Foram 6 etapas em 6 dias, totalizando 420km e 13.885 metros de desnível positivo acumulado, qualquer coisa como subir umas 10 vezes da Covilhã ao alto da Torre em BTT. Se juntarmos a todas estas subidas, o facto de muitas das descidas serem também bastante exigentes fisicamente, sobretudo para um individuo que já não fazia BTT a sério desde Outubro de 2013, quando participei na Brasil Ride, isto tudo junto é sinónimo de um “tratamento” que tão cedo não irei esquecer!


Acreditem que saí bem mais desgastado, física e mentalmente, destes 6 dias de ABR que dos 12 dias de Volta a Portugal em que participei o ano passado!
Ontem cumprimos a última etapa. Com a extensão de apenas 55km e cerca de 1300 metros de subida acumulada. O que dificultou mais esta etapa foi o facto de já termos 5 dias nas pernas, e a exigência técnica de alguma descidas e subidas, sobretudo em terreno rochoso. O cansaço físico e psíquico é tal que torna a nossa reação, agilidade e até poder de decisão bem mais lentos. Os erros e as quedas sucedem-se com mais frequência. Felizmente o terreno estava seco, senão seria mais um filme de terror!
A equipa GoldNutrition/Portugal, ou seja, eu e o José Rosa, bastava concluir esta etapa, sem problemas graves, para vencermos a classificação Master-40.
Os cerca de 45 minutos que tínhamos de vantagem para a segunda equipa – os espanhóis da Buff – permitia-nos dar ao luxo de fazer esta etapa em ritmo de passeio. Eu tinha total noção disso, tanto que nesta etapa e já na anterior, tinha deixado o “chip de competição” no quarto do hotel!
Ainda tinha bem gravado na memória as minhas duas quedas na Brasil Ride 2013, a última delas, na quarta etapa, obrigou-me a desistir com a jersey (azul) de líder envergada. Só não queria que esta situação se voltasse a repetir!
Fiz todas as descidas e trilhos mais técnicos com “pezinhos de lã”. Tenho noção que até metia raiva a muitos participantes que queriam passar por mim e não conseguiam. Aliás, até me metia raiva a mim! Mas eu facilitava sempre que podia. Encostava para o lado e: “Passem, passem, que eu não tenho pressa!”
Por outro lado o meu companheiro era o oposto. Comportava-se como se tivéssemos necessidade de ganhar ainda mais tempo aos adversários, ou de ganhar todas as etapas (já tínhamos vencido as 4 primeiras).
“Zé, calma!!”, “Zé, deixa-os passar!!”, “Zé, não arrisques tanto!”, “Zé, já temos os bilhetes comprados para a África do Sul!”
E o Zé só respondia: “Sim, sim, sem stress!”
Mas caramba, o stressado parecia ele! E no fundo estava. Foi a primeira competição de BTT por etapas do José Rosa. E ainda por cima uma prova com este nível internacional. E mais ainda, com uma camisola de líder envergada, situação que ele nunca tinha experienciado, mesmo com tantos anos de ciclismo de estrada ao mais alto nível!
Se há duas semanas me dissessem que teríamos condições para vencer a ABR, chamaria louco a essa pessoa.
O último estágio que fiz, exatamente neste mesmo local onde me encontro a escrever esta crónica, não correu nada como eu desejaria. Dos 5 dias de estágio na Serra da Estrela, só consegui fazer 2 treinos mais fortes. Esses dois treinos foram feitos na companhia do José Rosa, e não imaginam o que sofri para aguentar o ritmo dele de treino! Respiração muito acelerada, pulso alto, e os watts não apareciam!
Nesse momento foi muito importante os meus anos de experiência. Decidi não insistir e dar tempo ao tempo.
Quando regressei da Serra da Estrela estive quase uma semana sem praticamente treinar, ou então fazia treinos muito suaves de 1h30. Preferia entrar na ABR com falta de treino e de ritmo que já com o motor a verter óleo pelas juntas.
Sabia que ia sofrer nos 6 dias de prova, mas fazia parte do processo de preparação para a Absa Cape Epic, esta sim, a aventura que eu queria e ainda quero estar no melhor das minhas capacidades físicas e psíquicas. Todo o resto está a servir exclusivamente como preparação e não estou minimamente preocupado com a classificação.
Chegámos a Jaén, local onde iria começar a ABR, com 2 dias de antecedência, tempo suficiente para os preparativos e fazermos 2 pequenos treinos de descompressão dos 600km de viagem de carro. Nesses 2 treinos as más sensações continuaram. Ok, confirmava-se, vou mesmo sofrer durante toda a ABR!
Mas logo na primeira etapa fiquei surpreendido com as minhas sensações! Respiração fácil, pernas “soltas” e força nas subidas. Eh lá, temos homem!
Em relação ao José Rosa, sabia que ele estava bem. Tenho sido eu o responsável pela sua preparação física desde Novembro do ano passado. E tenho assistido ao crescendo da sua forma física, e por arrasto, da sua autoconfiança.
Concluída a primeira etapa, tínhamos “metido” mais de 10 minutos à segunda equipa master-40. Foram todos apanhados de surpresa. Eles, e nós!
Então e agora?! Viemos apenas para treinar, mas já somos líderes. Vamos oferecer estas jerseys verdes à segunda equipa, ou vamos á luta?
Sempre ouvi dizer que “mais vale um pássaro na mão, que dois a voar”!
Este assunto nem sequer chegou a ser discutido entre nós. Somos ambos competitivos. A resposta lógica era: “Vamos á luta”.
No final da quarta etapa já estávamos com mais de meia hora de avanço sobre a concorrência. Mas nestes 4 dias passei por fases complicadas. Quedas, cansaço, saturação devido aos demasiados trilhos técnicos e perigosos, pensei inclusive em “deitar a toalha”.
A partir do quinto dia, de uma forma até inconsciente, comecei a poupar-me, não só a nível físico mas também mental. Além do receio de (mais) quedas, o meu joelho também não parava de doer, sobretudo nas etapas mais longas. Neste aspecto, espero que esta dor seja unicamente fruto do traumatismo provocado por esta queda mais recente, e não o avivar da lesão que prejudicou a minha preparação para a Volta a Portugal, no ano passado.
Agora terminada a Andalucia Bike Race, dou-me por satisfeito não ter desistido de lutar pela vitória naquela que é uma das provas mais importantes do calendário internacional de BTT. Com um nível brutal em termos de participantes. Campeões do mundo, olímpicos, 750 participantes de mais de 30 nacionalidades, entre os quais várias seleções nacionais á procura de somar pontos para apuramento para os jogos olímpicos de 2016. Fica no meu palmarés desportivo ao lado das vitórias na Titan Desert 2011 e Transportugal Race 2012 e 1013.
Dizem que foi a ABR com mais nível competitivo e das mais duras até agora. Para nós, Team GoldNutrition/Portugal, valeu-nos sobretudo como um teste/ensaio de equipa para a Absa Cape Epic.
Apesar de conhecer o José Rosa do nosso percurso como ciclistas profissionais, nos anos 90, e inclusive fomos colegas em 93 e 95, nunca tinha sido colega dele em provas de BTT.
Acreditem que é preciso saber gerir hábitos e feitios quando se vive, literalmente, 24 sobre 24h durante vários dias com uma pessoa. Ambas as partes têm que ceder um pouco. O sucesso da equipa depende disso. E é normal com o passar dos dias, e com o cansaço físico e psíquico, haver momentos de exaltação e até de discórdia. Faz parte, mas tem que ser evitado.
Estou convicto que arranjei o parceiro ideal para este enorme desafio desportivo, que é participar na prova mais importante do mundo em BTT, e lutar por um lugar no pódio.
Antes de viajarmos para a Cidade do Cabo, no dia 10 de Março, temos ainda mais um pequeno ensaio. A Algarve Bike Challenge, nos dias 6, 7 e 8 de Março. O objectivo principal será provocar um pequeno estimulo ao nosso corpo, depois da semana de recuperação que vamos agora iniciar.
Ah, e fiquem descansados. Um dos objectivos a que me propus quando decidi participar na Absa Cape Epic, é continuar com esta forma de comunicação que já vos habituei quando participo nestas aventuras. Comecei com a Titan Desert, a Craft Bike Transalp, ambas em 2011. Depois as Transportugal, em 2012 e 2013, a Brasil Ride também em 2013, e agora a Andalucia Bike Race. As crónicas estão garantidas. Em relação aos vídeos dependerá sobretudo da disponibilidade de internet no acampamento da Absa Cape Epic.
Quero aproveitar para agradecer, uma vez mais, a todos os patrocinadores que embarcam incondicionalmente comigo nestas aventuras: GoldNutrition, BIKE ZONE, Scott Portugal, Fullwear Equipamentos de Ciclismo, SPEEDSIX, BBB Cycling, Continental, Compressport Portugal,Fisiotorres Lda, H2otel Congress & Medical SPA, Seasucker Portugal & España, e todos vós que me motivam para não me estatelar no sofá a fazer zapping na TV wink emoticon

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Andalucia Bike Race - Video da última etapa

Finalmente, já está online o video referente à última etapa da Andalucía Bike Race!
A câmara foi fixa no guiador da minha bike, e dá para ver os momentos de tensão dos primeiros kms ainda dentro da cidade de Córdoba, assim como algumas passagens por vários tipos de terreno durante esta etapa. Filmei também o momento que cortámos a meta e nos sagrámos vencedores na categoria master-40.
Durante o dia de hoje (sábado) publico a última crónica desta nossa aventura.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Andalucía Bike Race – Dia #5 ou “Uma rainha doce”

Hoje disputámos aquela que era intitulada de etapa “rainha”. 
Regra geral dá-se este nome à etapa mais dura de uma competição. O que me deixou bastante apreensivo e até com algum receio. Tendo como exemplo as etapas que já fizemos, todas elas duríssimas, se esta era a mais dura e técnica... “Jasus!!” Preparei-me psicologicamente para tudo!
Eu e o Zé combinámos cumprir esta etapa com o único objectivo de não arriscarmos absolutamente nada, para não sofrermos quedas ou avarias. Tínhamos mais de meia hora de avanço sobre a segunda equipa Master-40. Tempo mais que suficiente para fazer esta etapa de forma minimamente descontraída.
A partida foi dada do centro da cidade de Córdoba. Foi a primeira vez que fizemos uma partida simbólica, ou seja, até sairmos de Córdoba fomos em ritmo controlado por uma viatura da policia e não a podíamos passar. Isto originou uma tremenda tensão e confusão! Enquanto nas etapas anteriores a saída foi a “dar gás” de imediato, estirando completamente o pelotão, hoje como o ritmo nos primeiros 3-4km foi muito suave, todos queriam se colocar na frente do enorme pelotão, para quando a viatura se desviasse, estivessem bem colocados de forma a entrarem nos trilhos o mais à frente possível.

Foi a partida mais perigosa desta Andalucia Bike Race. Ciclistas a saltar rotundas, encostos de guiadores, travagens a fundo.... Ufa! Já parecia a chegada ao sprint de uma etapa da Volta a Portugal!
Ao sairmos de Córdoba, entrámos quase de imediato numa subida complicada, com cerca 5-6km e toda em pedra. Estava mesmo a prever que a etapa iria ser toda assim!
Quando terminámos esta subida entrámos num outro cenário, completamente diferente. Um cenário que me parecia familiar. Uma zona de bosque, muito verde. No solo a pedra quase tinha desaparecido, dando lugar à terra castanha compacta, com muita folhagem. Apenas o trilho por onde parece ser hábito passarem bicicletas estava mais limpo e polido. Caramba, isto parece-me mesmo a Serra da Sintra!
Lembram-se com que frase terminei a crónica de ontem? “Que saudades eu tenho de Sintra!” Será que alguém tinha ouvido as minhas preces? 


Andámos muitos quilómetros a serpentear em singles nesta mata. E acreditam que eu estava-me a divertir? Singles sem drops, pedras ou raízes molhadas! Ou seja, feitos de encomenda para mim  Yeahhh, afinal até gosto de singles!!!

Desfrutei cada momento daquela primeira metade da etapa, pois se era mesmo a etapa “rainha”, o castigo devia estar reservado para a segunda metade. Continuava preparado para tudo.
Com 1h46 de prova, a corrente da bicicleta do José Rosa parte. Em cerca de 5 minutos resolvemos a avaria. Mas entretanto passa a segunda equipa – os Buff, um dos elementos desta equipa participou também na Titan Desert que eu venci, em 2011. 

Depois da corrente consertada fomos na perseguição aos Buff. Em pouco mais de 5 minutos os apanhámos, e passámos diretos. Não é que fosse muito importante, mas estando na frente da corrida (master40, claro) é mais fácil controlar os adversários. Rapidamente nos distanciámos, e quando me apercebi que já tínhamos uma vantagem confortável, comecei a dizer ao José Rosa para ir com mais calma. Como referi nas crónicas anteriores, o Zé anda eufórico e super-motivado. Muitas vezes isso leva-nos a cometer erros, sobretudo por excessos. Hoje tive que o avisar mais de uma vez. Julgo que ele só conhece um ritmo de andamento, o 75% wink emoticon
Os quilómetros foram passando, e o cenário ora parecia a Serra de Sintra com singles entre vegetação densa, ora parecia o nosso Alentejo, num sobe e desce constante entre oliveiras. Quanto à famosa e temida pedra. Nem vê-la!
Só mais perto do final da etapa, talvez nos últimos 20km, é que apanhámos alguns trilhos em terreno rochoso, mas fazia-se relativamente bem, pois não estava molhado e não era pedra solta.
Resumindo, se esta foi realmente a etapa “rainha”, então há rainhas doces. Apesar do meu joelho se ter queixado com a quilometragem desta etapa (86km), foi a que mais me diverti e prazer me deu fazer.
Quando chegamos à meta estávamos convencidíssimos que tínhamos ganho também esta etapa. Mas não! Pelos vistos, no momento que estávamos a consertar a avaria, não passou uma equipa, mas sim duas! Apanhámos uma, ou seja, a segunda equipa classificada, mas não apanhámos uma outra espanhola. Esta chegou á nossa frente com cerca de 4 minutos de avanço. Mas está muito atrasada na classificação geral (cerca de 2h30). 

Hoje não subimos ao pódio como vencedores da etapa, mas “apenas” como líderes da classificação geral. E ainda ampliámos a vantagem em mais 11 minutos para os Buff.

Amanhã, FINALMENTE, será a última etapa desta edição da Andalucia Bike Race. Os últimos 55km de prova, e pelo que dizem, muito técnicos. Mas com uma vantagem de 44 minutos, temos tempo para tudo, menos para cair ou sofrer uma avaria irreparável. Infelizmente nesta modalidade acontece muito disto. Nem sempre ganham os fisicamente mais aptos. Basta olharem ao que se está a passar na luta pela classificação Elite Masculina. Primeiro a equipa Extremadura perde a liderança por uma avaria, e hoje foi a Seleção Nacional a ter esse infortúnio.
Até amanhã 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Andalucía Bike Race – Dia #4 - “Os meninos não me deixam brincar com eles!!”

Hoje a etapa começou e terminou num “pueblo” a cerca de 20km de Jaén, de nome Mancha Real. Mas à semelhança de Jaén, tudo à volta são montanhas, algumas delas com um manto branco no seu cume. Segundo o gráfico da etapa de hoje, iriamos chegar aos 1500 metros de altitude. Eu e o Zé, quando seguíamos de carro para a partida, pusemo-nos a adivinhar qual daqueles cumes à vista teríamos que subir...e descer.
Foi a etapa mais curta desta edição da Andalucia Bike Race. Mas mais uma vez, foi a que mais me custou passar até agora. Significa que o nível de cansaço físico mas também mental aumenta de dia para dia. A etapa anterior deixou-me o corpo bastante maltratado. Não só pela queda que dei ao atravessar a tal ponte de metal a 2km da chegada, mas sobretudo pelos muitos metros ou possivelmente até quilómetros que andei em vez de pedalar, em descidas com mais de 30% de inclinação e com pedras escorregadias à mistura.
Hoje de manhã sentia praticamente todos os músculos do meu corpo. Quando digo “sentir” refiro-me a dor. Pernas, costas e até braços! Quase não sabia andar, ou como se costuma dizer, hoje tinha um andar novo!:) 

Mas o que mais me preocupava era o joelho direito. O mesmo que sofreu um traumatismo na Brasil Ride 2013, tinha sofrido um novo embate na queda de ontem! Estava na expectativa como iria se comportar durante a etapa de hoje.
Sento dor mas deu para a gerir. Não sei se a dor que sinto foi deste embate ou se agravou a lesão anterior. Só daqui a uns dias saberei.
A etapa começou às 10h00. Um lindo dia de sol, mas muito frio. Cerca de 4ºC. Antes da partida andávamos todos à procura de sol.

O arranque mais uma vez foi...”nas horas do ca..tano!”. Os primeiros 4km em asfalto, mas em subida. Mal virámos para a mata, começa confusão! Todos com uma falta de ar, como se a etapa terminasse ali à frente! Muitos desses participantes com “falta de ar” já estão com mais de uma hora de atraso na classificação. Confesso que hoje não estava mesmo com paciência para disputar os melhores lugares ou trajetórias. Acho que me esqueci de ligar o “chip” de competição. Deixava passar toda a gente e nem reclamava. Só não queria era cair de novo. Este comportamento terá sobretudo a ver já com algum cansaço mental mas também com uma boa dose de frustração.
Em criança, como a maioria da minha geração, passava quase todo o meu tempo livre na rua, agarrado a uma bicicleta.
Uma bicicleta de menina, comprada em segunda mão, mas alterada para BMX. Era a minha companheira de aventuras e diabruras. Fazia tudo com ela, e era malabarista. Fazia descidas dignas de um trilho de Downhill, e andava com a roda da frente no ar o tempo que eu quisesse. Drops com menos de um metro de altura nem dava para aquecer! Isto até aos meus 13 anos de idade. Depois virei para o ciclismo de estrada. As capacidades físicas melhoraram consideravelmente, mas a técnica, essa, perdia praticamente toda.
Só há cerca de 6 anos é que comecei a utilizar uma bicicleta, que não de roda fina de forma mais assídua. Isto já com 39 anos de idade. Mesmo assim, com o passar do tempo, a minha técnica e confiança melhoraram bastante, e posso até dizer que não ficava envergonhado em qualquer maratona de nível nacional, mesmo nas mais técnicas. Mas o ano passado dei um grande passo atrás. Ao decidir preparar-me e participar de novo na Volta a Portugal em Bicicleta (de roda fina), coloquei a BTT de lado praticamente todo o ano de 2014. Dediquei-me exclusivamente ao treino para provas de estrada. Acreditem que isto foi o suficiente para perder completamente a confiança em cima de uma BTT! Não digo que voltei à estaca ZERO, mas estou lá perto.
A minha “sorte” é que as minhas capacidades físicas compensam em grande parte a falta de técnica. Pode parecer-vos presunção da minha parte, ainda mais que neste momento somos líderes (master-40) da ABR, mas acreditem que ainda estou longe da minha melhor forma física para o BTT. Tanto é que ao quarto dia já me doem quase todos os músculos do meu corpo! Em boas condições isso não aconteceria.
O facto de eu estar a aguentar o ritmo do meu colega José Rosa, que se tem aplicado seriamente nos treinos, e de estarmos com uma vantagem superior a meia hora para a segunda equipa, tem a ver sobretudo com as minhas capacidades físicas natas, ou genética, como queiram chamar. Mas ter vindo para a ABR com alguma falta de treinos e sobretudo ritmo de competição, faz com que eu de dia para dia vá sentido cada vez mais dificuldades em recuperar, ao passo que o meu colega quase não tem sentido quebra.
Moral da história: podes ser um dotado, mas se não treinares, vais sofrer, muito!
Pois, é o que me está acontecer nesta prova. Possivelmente uma das mais duras do mundo! E quando não estás bem fisicamente, o psicológico também se vai abaixo. E nem mesmo o facto de sermos líderes me tem dado ânimo!
Estou farto desta prova!
Por falta de confiança, porque não me divirto onde toda a gente parece se divertir, e como se não bastasse, agora também porque me dói o joelho!
Por outro lado, tenho noção que esta prova é importante para a nossa preparação para a Absa Cape Epic, e mais importante ainda, porque o meu companheiro está a ter uma oportunidade única, julgo eu, em toda a sua longa carreira como atleta. Ser líder de uma prova por etapas, e ainda mais internacional. Será por esta razão que o José Rosa anda eufórico e com uma moral do tamanho do mundo  O meu receio é que esta euforia nos leve a cometer excessos ou erros que ponham em risco a nossa participação na Cape Epic.
Estou sempre a relembra-lo que já temos os bilhetes comprados para a Cidade do Cabo, e que esse é o nosso principal objectivo, e que a ABR seria só para virmos treinar e desfrutar as paisagens.
A etapa de hoje terá sido pura diversão para os puros betetistas. Cerca de 30-40% da etapa era composta de single-tracks. E para todos os gostos. A subir com degraus em pedra, a descer com drops em pedra, a descer no meio do pinhal com curvas em cotovelo, ...
Eu parecia aqueles putos a queixar que “os meninos não me deixam brincar com eles!”. Acho que era o único que queria subidas longas em estradão ou descidas muito rápidas.
Mesmo com esta tão grande falta de vontade, acabámos por vencer também esta etapa. Mas desta vez com “apenas” 4 minutos de vantagem. A vitória de hoje é, em grande parte, “culpa” do José Rosa. A minha vontade hoje não era mesmo nenhuma. É por estas e por outras que serve uma equipa. Há sempre um elemento em condições para levar o barco a bom porto 
Amanhã temos mais uma longa etapa. 86km mas “só” com 2.000 de desnível acumulado. Se aquilo que me têm dito sobre a etapa estiver correto, será mais uma filme de terror para mim.
Ai que saudades que tenho de Sintra...e de um bom vinho tinto ao jantar!! tongue emoticon


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Andalucia Bike Race - Dia #2 "Pré-lavagem"


E pronto, cá estou eu de novo, o que significa que pelo menos sobrevivi à etapa de hoje.
Mas posso vos dizer que já tive melhores dias. Aliás, acho que até posso dizer que há mais de um ano que não tinha um dia pior que este! E o que me preocupa mais é que, pelo que me disseram por quem já fez edições anteriores desta prova, o pior (pelo menos para mim) ainda está para vir!
A etapa de hoje começou da maneira habitual, ou seja, rápida e logo com uma “boa” subida nos primeiros 20 quilómetros. Para a Team GoldNutrition/Portugal, ou seja, para mim e para o José Rosa, até é a melhor maneira de começar as etapas, pois ganhamos logo um avanço considerável face à concorrência e que nos permite depois, nos trilhos mais técnicos, não arriscar tanto. E assim foi, no primeiro posto de cronometragem, que ficava muito quase no final da primeira subida, ao km23, já levávamos mais de 6 minutos para a segunda equipa Master. 
Mas já nessa subida, sobretudo nos últimos 5km o verde da vegetação e das árvores começou a dar lugar ao cinzento das pedras. Parecia que estávamos a entrar noutro planeta. Esta subida que até aí era quase toda ela composta por estradões, por vezes rampas com mais de 15-20%, começou a estreitar até caber apenas ...meio pneu da bicicleta. Além da habitual dificuldade que é subir, juntou-se a agravante de fazer equilibro em cima da bike, e por vezes transpormos algumas pedras mais altas. Isto tudo quando já vínhamos a subir há mais de 45 minutos. A reação e o discernimento já não abundam, e a força de braços e pernas também já escasseia.
Como se não bastasse, as minhas costas, sobretudo zona lombar também já se queixava. Mas enquanto era a subir, e apesar do sofrimento inerente, estávamos em vantagem sobre os adversários, e o risco de cair e me magoar era quase nulo. A velocidade também era menor. Mesmo assim ainda virei a cabeça para a direita e tirei as medidas ao precipício que estava ali a cerca de 20 centímetros de nós.
Mas bem pior, pelo menos para mim, foi quando o terreno mudou o seu ângulo de positivo para negativo! Ah, e as pedras? Pareciam rebentos a nascer do solo! Como alfaces, fresquinhas e húmidas! Só que bem mais rijas e pontiagudas!  Aliás, podem ver o video que publiquei no meu canal Youtube que mostra um pouco dessa descida (http://youtu.be/jgjPClnc9Pw?list=PL746CFDFD01882AE8).
Bem, acho que não preciso de voltar a dizer que sou “pato bravo” no BTT. Admito! Não sei controlar a bicicleta em trilhos técnicos.
Nesta primeira descida técnica, que teria uns 4 km, devo ter feito 3km em cima da bike, e 1km ela em cima de mim. Bendita hora que me lembrei de trocar de sapatos! Hoje, em vez dos Scott Premium que têm uma sola com índice 10 de rigidez, e pouca borracha, optei pelos Scott RC, que têm mais sola e menos rigidez. Senão acho a única forma de fazer aquela descida seria a rebolar. Mesmo assim sofri uma queda, mas sem consequências. Mas confesso que fiquei agradado quando não fui só eu a ter dificuldades e a cair nesta descida. Sempre atenua um pouco o meu fardo de ser “aselha” 
O meu colega caiu duas vezes nesta descida, mas acho que levantou-se mais rápido com que caiu, lol.
A segunda metade da etapa já era tecnicamente mais acessível, mas por incrível que pareça ainda conseguiram aumentar o grau de exigência física. Rampas com mais de 20% em piso irregular e com pouca aderência!
Algumas vezes o esforço para pedalar era tanto que compensava mais subir a pé. Eu que até gosto de subir, confesso que já estava farto! Queria descidas em estradões e ver Jaén o mais rápido possível. 
A cerca de 20km da chegada, esse desejo foi-me satisfeito. Uma descida com cerca de 12km em gravilha solta foi feita a alta velocidade. Nas curvas em gancho ainda me fugiu a roda da frente duas ou três vezes, mas comparado com aquilo que tinha passado cerca de duas horas atrás, até me deu alguma pica, já que era um risco mais controlado.
Os últimos 5km eram exatamente iguais aos das etapas anteriores. A cerca de 2km da chegada, passávamos uma ponte metálica que ligava as extremidades de um riacho. Sorte ou aselhice a minha, o meu pedal direito bate numa estaca que estava à entrada dessa ponte. A bicicleta dá uma guinada e aí vai o Vitor ao rio! A queda não foi mais que de um metro de altura, mas a água estava gelada!
Rapidamente me levanto e confirmo se estou inteiro. Bem, já estive melhor! O meu joelho direito ficou raspado, e....começo a rir. A parte da frente dos meus calções tinha simplesmente desaparecido! Nessa altura já não sabia se havia de rir ou de chorar. Rir porque não sabia como iria fazer os 2km que faltavam da etapa sem dar muito nas vistas (para quem não sabe, os ciclistas não usam cuecas por debaixo dos calções), ou chorar porque tinha caído mais uma vez para direita e o joelho magoado era o do costume.
Montei-me em cima da bicicleta, o José Rosa e o Milton Ramos, este tinha sido alcançado por nós a 10km da chegada, perguntam-me se está tudo bem, mas a rir! Não os critico, porque eu também ria a bom rir.
Felizmente levava uma camisola interior da Compressport, que são muito compridas e elásticas. Puxei a camisola para baixo o máximo possível, e enrolei o meu “abono de família” smile emoticon E fiz assim o resto da etapa, rezando para que não me tirassem muitas fotos. 
Mal cortei a meta, fui de imediato buscar o meu saco para vestir umas calças que estavam preparadas para ir ao pódio.
Ao trocar de roupa apercebi-me também que aquela ida ao rio tinha servido de pré-lavagem, pois a roupa estava quase limpa. 
Ah, para os mais curiosos. O meu “abono de família” parece que está bem. Apenas uns pequenos arranhões 
Mais alguns pontos:
1º No que respeita à parte mais desportiva, apesar de tudo voltámos a vencer a etapa e ampliámos a nossa vantagem para cerca de 25 minutos. Por aqui tudo bem.
2º Andalucia Bike Race é outra prova a não repetir. Quem gosta de técnica ao limite (no que respeita a maratonas), aconselho. Se forem como eu, em que preferem dar prioridade à parte da performance física, hummm, há outras aventuras bem mais interessantes.
3º José Rosa: aquela máquina! Já chegámos á conclusão que ele sofre mais na minha roda do que se for ele a puxar. Resultado: numa etapa como a de hoje, que teve 75km, ele puxa uns 50km, e eu os outros 25.
Amanhã a etapa tem “apenas” 50km e ...2017 de subida acumulada. E segundo as previsões, a tendência é a exigência técnica ser cada vez mais alta à medida que os dias vão passando! Mais ainda?!