quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia #5 - "A Cape Epic não vive só de lugares no pódio"



Estamos a cumprir o 5º dia de Absa Cape Epic 2015. 

Se fosse a Andalucia Bike Race amanhã seria a última etapa. Mas não é! Além de mais dois dias, as etapas são bem mais longas. 
Em apenas 5 dias, e em que no primeiro foi apenas um prólogo de 20km, já levamos (eu e o José Rosa) 22 horas a pedalar! E se por um lado eu me queixava que a ABR era muito técnica e até perigosa, pelo que vi até ao dia de hoje, a Cape Epic é diferente. Não é muito técnica, não é perigosa, mas é mais dura!
Raramente passamos por trilhos perigosos, e quase todos eles cicláveis, tanto a descer como a subir. As vezes que transportei a bike à mão foi sobretudo em trilhos com muita areia solta. Aliás, se me perguntarem o que é que mais me lembro destas etapas que já fizemos, eu diria: pó, areia e single-tracks. Se bem que a etapa dos singles foi sobretudo a segunda. Uma etapa espetacular!
Hoje foi o oposto. Diria até que hoje foi a “shit stage”. Daquelas que não interessam nem ao menino Jesus. O cenário foi basicamente pedra, areia e pó. Houve momentos que não via um palmo á minha frente. Comi mais pó hoje que todas as outras etapas juntas. Um pó e areia tão finos que entravam pela fina rede dos sapatos. A meio da etapa já quase não tinha espaço dentro dos sapatos para esticar os dedos. Por vezes tentava puxar a areia da frente do sapato para debaixo do pé com o meu dedo grande. Ainda comecei a pensar se me teria esquecido de alguma coisa dentro dos sapatos!
Também tive que tirar os óculos e colocar no bolso da Jersey, pois o suor misturado com o pó impedia completamente a sua utilização. Se calhar a única coisa que me agradou nesta etapa, além de ver a meta, foi ter visto dois rinocerontes mesmo ao nosso lado. Que bichos!!
Depois da queda aparatosa que sofri ontem, estava preocupado com o estado do meu joelho. Na expectativa se ele iria resistir a tanta dureza. Como é habitual, a partida foi dada a todo o gás. Os primeiros 10km eram planos, mas com imensa pedra solta. Pedras redondas e polidas do tamanho de bolas de ténis. No grupo da frente rolávamos a mais de 35km/h por cima delas. Parecia que estávamos a fazer equilíbrio em cima de berlindes gigantes! Que sofrimento para não perder esse grupo! O joelho custava a dobrar. Mas assim que aqueceu, passou  Ufa!
O problema foi mesmo as muitas chicotadas que levei no joelho ferido, de ramos e arbustos durante toda a etapa. Parecia que estava a ser castigado!
Mas normalmente é no dia a seguir a cairmos que conseguimos avaliar os estragos. Quando começou a primeira subida, por volta do km15, comecei a sentir o meu braço direito dormente. Desde o ombro até aos dedos das mãos. Na queda terei lesionado um nervo, ou então algo que está a comprimi-lo. A subir só conseguia fazer força com o braço esquerdo, e tinha dificuldade em rodar o punho das mudanças. Quanto mais força fazia (e faço) mais ele fica dormente.
A certa altura avisei o Zé Rosa para deixarmos ir o grupo onde seguíamos. Seria o segundo pelotão. Na frente iam os pros, e depois seguíamos nós com alguns elites e as 3 equipas master que estão á nossa frente na classificação. Infelizmente não estava mesmo em condições de seguir aquele ritmo!


A meio da etapa fomos apanhados pela equipa feminina líder. Só vos digo uma coisa. Que andamento estas duas meninas têm!! Estamos a falar de duas raparigas que fazem nos 30 primeiros da classificação GERAL (homens elites incluídos)!! As duas juntas não terão mais que 90 quilos. Com um ritmo sempre muito certinho, cadência muito leve a subir, e a voar baixinho a descer. O Zé até comentou: “O que é que elas comerão ao pequeno-almoço?”
Fizemos o resto da etapa com elas. Confesso que nas descidas mais técnicas via-me a aflito para seguir o ritmo delas. Mas o orgulho fez-me fechar os olhos algumas vezes e tirar as mãos dos travões  Na última descida da etapa, uma delas espalhou-se, levantou-se quase de imediato mas acabaram por chegar uns 3 minutos atrás de nós.
Em todas as provas de BTT por etapas que fiz até ao momento (Titan Desert, Transportugal, Transalp, Brasil Ride, Andalucia Bike Race), só na Transalp e na Andalucia fui sem objectivos de classificação. Simplesmente para desfrutar ou treinar. Mesmo assim ganhámos a Andalucia Bike Race.
Para a Absa Cape Epic viemos com o objectivo de lutar por um lugar no pódio, mas já deu para ver que em condições normais, ou seja, se não houver grandes azares com as 3 primeiras equipas, esse objectivo não será alcançado! As duas primeiras equipas são muito completas, ou seja, sobem bem, não tanto como nós, mas por outro lado têm uma técnica muito superior à nossa. Em descidas e singles eles simplesmente desaparecem! Em relação à terceira equipa, formada por um antigo ciclista de estrada bem conhecido dos portugueses que acompanharam o ciclismo do meu tempo (anos 90) – Daniele Nardello, e pelo francês Karl Zoetemelk, não me parece que sejam em nada superiores a nós, mas a minha queda de ontem afastou-nos quase irremediavelmente do 3º lugar do pódio.
Não desejo mal a ninguém, portanto não vou ficar à espera que uma das equipas tenha alguma infelicidade. Costumo dizer que os piores lugares numa classificação, são o segundo e o quarto. O segundo porque foi o primeiro a perder, e o quarto porque foi o primeiro a ficar fora do pódio. Portanto, não me vou preocupar em defender o quarto lugar, mas claro que também não vou fazer nada para o perder. Irei dar sempre o meu melhor, mesmo sabendo que neste momento o meu melhor não é suficiente para conseguir o objectivo inicialmente proposto. 
Mas a Cape Epic não vive só de lugares no pódio. É uma experiência de vida inesquecível! Mesmo que seja só uma vez! Os que terminarem esta aventura vão sair daqui mais fortes, sobretudo a nível mental, e com muitas histórias para contar. Pois bem, contem comigo para contar algumas dessas histórias. Infelizmente ainda não consegui arranjar um novo suporte para a minha câmara de filmar frown emoticon
Até agora falei muito pouco da estrutura e organização deste que é considerado o evento de BTT mais importante e mediático do mundo. Posso dizer e tendo sempre em conta que somos 1200 participantes (de mais de 60 países), que não consigo apontar muitos pontos negativos ou falhas. A comida não é nada de especial, mas não passamos fome. Os pequeno-almoços consistem em cereais, papas de aveia e pão de forma.


O jantar em lasanha de frango (quase todos os dias) e carne de borrego ou de vaca estufadas, com arroz ou batata.
Também há sempre fruta e algum bolo ou pudim.



Em relação a bebidas, a água pelo menos é de borla  As restantes é a pagar.
No final de cada etapa recebemos de imediato um saco com o nosso lanche. Um milkshake, uma sandes, um icetea e uma peça de fruta. A isto junto sempre um Fast Recovery.
As tendas individuais têm tamanho suficiente para dormirmos lá dentro e colocar os nossos pertences. Se bem que durante o dia não se consegue estar lá dentro, tal o forno! Para descansarmos durante o dia temos várias zonas “chill out” com cadeirões, cadeiras, mesas, colchões, e onde existem algumas tomadas para carregarmos os nossos aparelhos elétricos. Neste aspecto poderia haver mais. É sempre uma guerra para arranjar uma tomada. Felizmente como somos das primeiras equipas a chegar, conseguimos com mais facilidade 
Cabines de WC existem também bastantes, e muito asseadas. Há sempre um funcionário com uma esfregona na mão. Em hora de ponta, ou seja, entre as 5 e as 7 da manhã, não esperamos mais que 3 minutos para conseguir uma cabine livre.
Os duches também não são problema. Como os atletas vão chegando das etapas em conta gotas, há sempre cabines de duche disponíveis, e com água quente. Se bem que com estas temperaturas só apetece água fria. Até eu que sou friorento.
A organização encarrega-se da lavagem das bikes. Ok, tiram o maior. Depois temos sempre que passar um pano e lubrificar. Com a roupa passa-se o mesmo. Colocamos a roupa da etapa num saco, disponibilizado pela organização, e entregam-na lavada no dia seguinte. Bem, alguma dela temos que a lavar novamente, mas é sempre melhor que a lavarmos toda 
Em conversa com os restantes tugas, durante o jantar de hoje, falámos na quantidade de colaboradores, funcionários, etc. No mínimo 500, mas não me espanta que sejam mais de mil.


A Cape Epic, não é uma prova perfeita, mas a máquina já está oleada. Esta é já a 12ª edição.
Não podemos esquecer que cada inscrição custa cerca de 4 mil euros (por dupla). Quem paga este valor deverá exigir uma qualidade correspondente. Não fazem mais que a sua obrigação.
Não comprámos o serviço de mecânica. Sinceramente sentimos falta. As nossas bikes já têm ruídos em tudo quanto é parafuso  Só para terem uma ideia, as equipas profissionais (Merida, Specialized, Scott, Bulls, Centurion, ...) desmontam as bicicletas, lubrificam e colocam pneus novos, TODOS OS DIAS!
Nós por outro lado, rezamos para que um par de pneus aguente os 8 dias de provas tongue emoticon
Por outro lado, achámos importante adquirir o pacote (serviço) de massagem. Todos os dias somos massajados durante 45 minutos, sobretudo pernas e zona lombar. O que mais sofre no BTT. As massagens são feitas por jovens sem grande experiência, mas é melhor que nada.

Um denominador comum é a simpatia de todo o staff. Sempre disponíveis e com um sorriso nos lábios.
Amanhã será mais uma etapa bem longa (117km) e quente (prevê-se 32ºC). Só espero que o meu braço esteja melhor e que não haja tanto pó, pois não tem mesmo piada nenhuma.
Como a chegada é em outra localidade, vamos ter que preparar os nossos sacos para os entregar à organização, amanhã a seguir ao pequeno-almoço, que como tem sido habitual, será às 5h15.
Vai ser bonito quando chegar a Portugal! Vou acordar às 2h30 da madrugada com fome, vou querer jantar às 16h00 e dormir às 19h00, lol
Até amanhã.





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